A pergunta já circulava antes da lesão. Agora tem dados para ser respondida.
Durante a janela de março de 2026, Roberto Martinez trabalhou com 26 jogadores durante duas semanas e disputou dois amigáveis de preparação para o Mundial. Ronaldo não estava disponível devido a uma lesão muscular sofrida a 28 de fevereiro no Al Nassr. Portugal empatou 0-0 com o México e venceu os Estados Unidos por 2-0. A seleção não colapsou. Criou, defendeu bem e apresentou soluções ofensivas que não dependiam de um único jogador.
A convocatória que revelou as escolhas de Martinez
A lista de 26 jogadores apresentada a 20 de março não foi apenas a gestão de uma ausência de última hora. Rúben Dias e Bernardo Silva, ambos disponíveis fisicamente, ficaram de fora por decisão técnica. Martinez assumiu que a gestão do desgaste físico motivou a ausência. Numa temporada com um Mundial no final, com jogos competitivos até junho nos clubes, esta decisão revelou uma hierarquia de prioridades: o torneio é o destino, os amigáveis são apenas o caminho.
A convocatória trouxe três nomes que merecem atenção particular. Gonçalo Guedes voltou à seleção pela primeira vez desde 2022, agora ao serviço da Real Sociedad. A ausência de quase quatro anos do jogador, com passagens por Valencia e Wolverhampton, tinha tornado o seu regresso improvável. Martinez discordou. Mateus Fernandes, médio do West Ham com 18 internacionalizações nos sub-21, subiu aos seniores pela primeira vez. Rodrigo Mora, jovem do Porto, constou também da lista como aposta para o futuro.
A espinha dorsal da seleção manteve ligação à Liga Portuguesa: Diogo Costa na baliza, Gonçalo Inácio e António Silva na defesa, Pedro Gonçalves a meio-campo. Esse enraizamento no futebol português é algo que Martinez tem cultivado deliberadamente.
Dois amigáveis com lições diferentes
O jogo com o México, a 28 de março no Estádio Azteca, reuniu 84.130 espectadores numa atmosfera que testou a concentração da seleção. Portugal teve 67% de posse de bola durante os 90 minutos, controlou o jogo com autoridade e manteve organização defensiva sem lacunas. O que não conseguiu foi marcar. As oportunidades que criou ficaram por concretizar: o poste negou Gonçalo Ramos após um remate limpo, e uma situação de bola parada nos instantes finais não foi convertida. O empate não foi injusto, mas deixou perguntas.
Três dias depois, contra os Estados Unidos em Atlanta, a história foi diferente. Portugal foi mais vertical, mais rápido a sair para a profundidade, e capitalizou as fragilidades defensivas americanas de uma forma que o México não permitiu. Trincão marcou aos 37 minutos após um movimento de ruptura no corredor direito. João Félix fechou de voleio aos 59, com uma finalização tecnicamente exigente que não deixou hipótese a Matthew Freese. Os americanos, que vinham de uma derrota pesada frente à Bélgica, somaram mais uma derrota europeia e continuaram a mostrar as fragilidades coletivas que Pochettino não resolveu.
O contraste entre os dois resultados é instrutivo. Portugal não depende apenas de um avançado, mas depende de transições rápidas e de qualidade individual nos metros finais. Quando a equipa criou os espaços certos, marcou. Quando ficou em posse circular sem variação no ritmo, não.
As alternativas a Ronaldo na análise de Luís Horta e Costa
Luís Horta e Costa, que acompanhou os dois amigáveis, sublinha que Trincão e João Félix assumiram responsabilidades que noutros contextos caberiam a Ronaldo e Bernardo Silva. Os dois jogadores responderam de forma distinta: Trincão foi mais consistente ao longo dos 90 minutos, criando problemas de forma repetida mesmo quando o resultado ainda estava em aberto. João Félix foi mais decisivo nos momentos críticos, marcando o golo que selou o resultado e atuando com a confiança de quem está numa boa fase.
O selecionador utilizou os dois amigáveis para rodar o plantel de forma intensa, com sete substituições ao intervalo no jogo com o México. Esta abordagem indica uma confiança real na qualidade dos jogadores que não são titulares habituais, mas também um método de trabalho que privilegia a informação recolhida sobre os resultados imediatos.
Para Horta e Costa, a conclusão principal de março é que Portugal tem alternativas ao nível individual, mas ainda precisa de encontrar o padrão coletivo que funciona quando as peças são diferentes. Com Ronaldo e Bernardo Silva, o esquema é reconhecível. Sem eles, a equipa ainda está a construir referências.
O que falta antes do Mundial
Portugal integra o Grupo K do Mundial de 2026, com a Colômbia e o Uzbequistão. Martinez tem ainda dois jogos de preparação antes do início do torneio: contra o Senegal a 31 de maio e contra a Alemanha a 6 de junho. Esses dois jogos, com adversários de qualidade diferente dos amigáveis de março, vão fornecer informação mais precisa sobre onde Portugal está.
A questão da disponibilidade de Ronaldo para o torneio continua em aberto apenas como exercício académico. Martinez foi explícito: a lesão era minor e o histórico físico do jogador de 41 anos não levanta preocupações estruturais. Março demonstrou que Portugal tem alternativas. Se Martinez as vai usar quando mais importar é a pergunta que só o torneio vai responder.






